segunda-feira, 29 de abril de 2013

DO JORNAL PEQUENO: Polícia 'grampeou' 7 suspeitos de agiotagem no Maranhão. Blogueiros estão entre os investigados

ESCUTAS AUTORIZADAS DA INVESTIGAÇÃO DO ‘CASO DÉCIO’

Ao menos outros 3 supostos agiotas – entre eles um juiz e um deputado estadual – aparecem nas escutas da polícia feitas após o assassinato de Décio Sá; as interceptações foram denominadas ‘Operação Blogueiro’

POR OSWALDO VIVIANI

Sete suspeitos de atuar como agiotas foram ‘grampeados’ durante dois meses de 2012 (maio e junho) pela Polícia Civil do Maranhão. As escutas telefônicas fizeram parte de uma operação denominada ‘Blogueiro’, a cujas degravações o Jornal Pequeno teve acesso. Elas foram pedidas à Justiça pela comissão de seis delegados que investigou o assassinato do jornalista Décio Sá, ocorrido em abril do ano passado. 

A juíza Alice de Sousa Rocha, então titular da 1ª Vara do Tribunal do Júri, autorizou. Além de Gláucio Alencar Pontes de Carvalho e seu pai José de Alencar Miranda Carvalho, foram ‘grampeados’ Pedro Alberto Teles de Sousa (filho do ex-prefeito de Barra do Corda, José Mariano de Sousa, o ‘Nenzim’, e irmão do deputado estadual Rigo Teles, ambos do PV); Eduardo José Barros Costa, o ‘Eduardo DP’ (filho da ex-prefeita Arlene Costa, de Dom Pedro); Josival Cavalcanti da Silva, o ‘Pacovan’ (que, conforme a polícia, disputava negociatas em prefeituras do Maranhão com Gláucio Alencar e seu pai, Miranda); Paulo Roberto Pinto Lima, o ‘Carioca’ (ligado a Pedro Teles, segundo apurou a polícia); e Ronaldo Henrique Santos Ribeiro (advogado, indiciado pela polícia e denunciado pelo Ministério Público por envolvimento em agiotagem nas prefeituras e no assassinato de Décio Sá).

No bojo das escutas da ‘Operação Blogueiro’, também aparecem os nomes do juiz de Caxias Sidarta Gautama Farias Maranhão e do deputado estadual Marcos Antonio de Carvalho Caldas (PRB).

Em janeiro de 2010, o magistrado foi flagrado em ‘grampos’ da Polícia Federal em conversas com ‘Eduardo DP’ que revelavam indícios de agiotagem.

Por envolver um juiz, o caso foi levado à Corregedoria do Tribunal de Justiça do Maranhão, que em fevereiro passado decidiu arquivar o pedido de abertura de processo administrativo disciplinar contra Sidarta.

Nas escutas da ‘Operação Blogueiro’, o juiz Sidarta Gautama teve ‘grampeado’ um diálogo que teve em 17 de junho de 2012 com Pedro Teles. ‘O Charles sumiu do mapa (…) e ficou me devendo um monte dinheiro’, afirma Sidarta. Não fica claro na conversa quem é Charles. Pedro Teles responde que ‘aquele que mataram lá em Teresina [Fábio Brasil] também deu um monte de prejuízo’ e diz que quer falar com Sidarta pessoalmente.

Pedro Teles foi condenado, no início do mês passado, a 21 anos de prisão, como mandante da morte do líder comunitário Miguel Pereira Araújo, o ‘Miguelzinho’, assassinado em 1998, em Barra do Corda. Seus advogados recorreram e ele espera o resultado do recurso em liberdade. No dia do assassinato de Décio Sá, Pedro Teles entrou em contato telefônico com Raimundo Chaves Sales Júnior, o ‘Júnior Bolinha’, um dos principais envolvidos no homicídio.



Quanto a Marcos Caldas, que tem sua base política no município de Brejo, ele já foi sócio de ‘Júnior Bolinha’ numa loja de revenda de carros na Avenida dos Africanos (São Luís).

Segundo o que disse à polícia Patrícia Gracielli Aranha Martins, viúva do negociante de carros Fábio dos Santos Brasil Filho, o ‘Fabinho’ (assassinado em Teresina no fim de março de 2012), o parlamentar fazia empréstimos a juros. Ele teria emprestado R$ 60 mil a ‘Fabinho’ – um dos muitos que o empresário morreu sem quitar.

Nos ‘grampos’ da ‘Operação Blogueiro’, Marcos Caldas conversa várias vezes com um dos indiciados do ‘caso Décio’, o advogado Ronaldo Ribeiro. Numa dessas conversas, ocorrida em 13 de junho de 2012 – dia das prisões dos acusados de envolvimento no assassinato do jornalista –, o parlamentar fala que ‘tem um dinheiro com Gláucio pra receber de uma casa’.

‘Galinhas’ e ‘tomates’ – Diálogos interceptados de Gláucio Alencar, José Miranda, Paulo Roberto Pinto Lima, o ‘Carioca’, e Eduardo José Barros Costa, o ‘Eduardo DP’, também revelam fortes suspeitas de prática de agiotagem, embora – assim como no resto nos demais ‘grampos’ – houve um cuidado especial dos ‘alvos’ para que não aparecessem relações escusas dos supostos agiotas com prefeituras. Os quatro tratam mais de empréstimos pessoais a juros escorchantes e negócios com veículos.

Um raro caso em que a agiotagem nas prefeituras aparece é num diálogo, ocorrido em 26 de junho de 2012, entre ‘Eduardo DP’ e um homem identificado apenas como ‘Zé’. Na conversa ‘grampeada’, fala sobre seis cheques de R$ 600 mil cada da merenda escolar de Dom Pedro, que estariam nas mãos de Gláucio Alencar e foram apreendidos pela polícia.

Em outros diálogos, mais precavido, ‘Eduardo DP’ usa ‘galinhas’ e ‘tomates’ como códigos para evitar falar em dinheiro:

‘Galinha de dois, três mil contos não dá. Fala pra ver se come uma de cinco’ (16 de junho de 2012); ‘Preço do tomate: 35 e 32′ (20 de junho de 2012).

Já ‘Carioca, numa conversa com um certo Paulo, gravada em 31 de maio de 2012, é questionado ‘se tem moral com Alexandre, que está devendo R$ 15 mil para seu amigo Daniel, da Rivel’. ‘Carioca’ responde que ‘tem que armar para tomar o carro dele, pois ele tem que pagar’.

Truculência nas cobranças também é demonstrada por Josival Cavalcanti da Silva, o ‘Pacovan’. Conversando com um devedor, em 11 de junho de 2012, ele decreta: ‘Veja o que tu tem aí. Eu só quero o meu dinheiro. Vende o que tu quiser, casa, carro…’

‘Todos vão responder’ – Falando ao JP sobre as investigações da agiotagem no Maranhão, o delegado Augusto Barros, titular da Seic (Superintendência Estadual de Investigações Criminais), disse que ‘num primeiro momento, o foco investigativo é o núcleo chefiado por Gláucio Alencar e seu pai, mas a seguir todos os esquemas de agiotagem no estado serão desarticulados’.

O delegado afirmou que ‘nenhum envolvido nesse tipo de crime vai poder ficar tranquilo, pois todos vão ser presos e terão de responder na Justiça, independentemente de serem ou não ‘figurões’ conhecidos da sociedade maranhense’.

Quatro blogueiros e viúva de Décio Sá também foram ‘grampeados’


Blogueiros 'grampeados'

O blogueiro Luís Assis Cardoso Silva (Luís Cardoso) e seus filhos Luís Pablo Conceição Almeida e Hilton Ferreira Neto (Neto Ferreira), também possuidores de blogs, assim como Marcelo Augusto Gomes Vieira, foram ‘grampeados’ na ‘Operação Blogueiro’ nas investigações do ‘caso Décio Sá’. A viúva do jornalista, Silvana Cardoso da Cruz, igualmente teve seus telefones interceptados.

A polícia pediu as interceptações porque viu ‘fortes indícios de suspeição’ (palavras constantes do pedido à Justiça), em certas atitudes dos blogueiros – que na noite do crime estavam reunidos no Restaurante Dona Maria (Calhau), para onde Décio Sá iria, antes de mudar o rumo para o Bar Estrela do Mar (Litorânea), onde foi assassinado.

Luís Cardoso, que marcou o encontro com Décio no Dona Maria, omitiu, em seu depoimento à polícia, dois números de celulares.

Luís Pablo entrou em contato por celular com o advogado Ronaldo Henrique Santos Ribeiro (um dos 12 denunciados pelo assassinato) às 22h26, ou seja, em cima da hora do crime. Ronaldo retornou para Luís Pablo logo após.

Tanto Luís Pablo como Luís Cardoso eram amigos de Paulo Roberto Pinto Lima, o ‘Carioca’, amizade que acabou em fevereiro de 2012, quando ‘Carioca’ registrou uma ocorrência no Plantão da Beira-Mar contra pai e filho, que teriam comprado R$ 30 mil em roupas com um cartão de crédito emprestado por ‘Carioca’ e pago a ele apenas R$ 9.200.

Marcelo Vieira foi ameaçado, em agosto de 2011, por Gláucio Alencar e dois seguranças (‘Alemão’ e Laércio) quando almoçava com ‘Carioca’ no restaurante ‘Cabana do Sol’ (Praia de São Marcos). Gláucio teria se irritado com postagens sobre ele no blog de Marcelo. No mesmo dia da altercação, sob a intermediação do juiz Sidarta Gautama, Marcelo foi ao apartamento de Gláucio. Depois da ‘conversa’, o blogueiro nunca mais postou nada mencionando o suposto agiota.

Já a viúva de Décio Sá, Silvana Cardoso da Cruz, foi ‘grampeada’, segundo a polícia, porque resistiu a entregar à polícia a CPU do jornalista, que estava em sua casa, e outros pertences de Décio, como o carro (Fox prata), uma bolsa, um pen drive e um notebook. Nos ‘grampos’ da ‘Operação Blogueiro’, Silvana revela, numa conversa com o também blogueiro Hostílio Caio Pereira da Costa, ocorrida em 30 de maio de 2012, que um dos irmãos de Décio, o policial militar Plínio Leite de Sá, pegou o carro, a bolsa e o pen drive antes da perícia, na noite do crime, e chegou a lavar o carro. Silvana afirmou, ainda, no diálogo com Hostílio, que Plínio também teria mexido na bolsa e até no conteúdo do pen drive.

Além das pessoas já mencionadas, também foram ‘grampeadas’ na ‘Operação Blogueiro’ ao menos outras dez: Raimundo Chaves Sales Júnior (‘Júnior Bolinha’); Fábio Aurélio do Lago e Silva (‘Buchecha’); Alcides Nunes da Silva (investigador afastado da Seic); Paulo Cícero Farias Venturini (negociante de carros de São Luís); Patrícia Gracielli Aranha Martins; Aristides Milhomem de Sousa (ex-vice-prefeito de Barra do Corda); Joab Jeremias Pereira de Castro (soldado da PM reformado e secretário de Comunicação do Partido dos Trabalhadores); Hélcio Menezes (funcionário de Gláucio Alencar); Marcelo Minardi (ex-assessor da prefeitura da Paço do Lumiar); e Francisco das Chagas (dono do Restaurante Dona Maria) (Oswaldo Viviani)

‘Décio tinha um ‘négócio fixo’, que vinha do Senado’, diz Luís Cardoso

Numa conversa ‘grampeada’ durante a ‘Operação Blogueiro’, o jornalista e blogueiro Luís Cardoso revela a um interlocutor de nome Matias que o jornalista e também blogueiro Décio Sá recebia dinheiro do Senado Federal.

‘Ele tinha um ‘negócio fixo’ que vinha do Senado. Vinha direto na conta’, diz Cardoso a Matias em 2 de junho de 2012.

‘É por isso que nem Roseana [Sarney, governadora do Maranhão] segurava. Nem ela fez o cara parar’, completa Luís Cardoso.

(OV)

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